
que o arrepiava.
- Eu me lembrarei do conselho, Meistre. E agradeço-
lhe pela ajuda. Já tomei bastante do seu tempo -
Ned pôs-se em pé.
O Grande Meistre Pycelle ergueu-se lentamente da
cadeira e acompanhou Ned até a porta.
- Espero que tenha ajudado um pouco a acalmar a
sua mente. Se houver algum outro serviço que eu lhe
possa prestar, basta pedir,
- Há uma coisa - disse-lhe Ned. - Tenho curiosidade
em examinar o livro que emprestou a Jon um dia
antes de cair enfermo.
- Temo que seja de pouco interesse - disse Pycelle. -
Foi um solene volume escrito pelo Grande Meistre
Malleon sobre as linhagens das grandes Casas.
- De qualquer modo, gostaria de vê-lo.
O velho abriu a porta.
- Como desejar. Tenho-o guardado por aqui. Quando
encontrá-lo, mandarei imediatamente entregar-lhe.
- O senhor foi de grande cortesia - disse-lhe Ned. E
então, como se algo lhe tivesse ocorrido r.e repente,
disse: - Uma última pergunta, se sua bondade me
permite. O senhor mencionou que o rei esteve à
cabeceira de Lorde Arryn quando morreu. Pergunto
se a rainha o acompanhava.
- Ora, não - Pycelle respondeu. - Ela e os filhos
estavam a caminho de Rochedo Casterly, em
companhia do pai. O Senhor Tywin tinha trazido um
séquito até a cidade para o torneio do dia do nome
do Príncipe Joffrey, sem dúvida esperando ver o
filho Jaime ganhar a coroa de campeão. Mas ficou
tristemente desapontado. Caiu sobre mim a tarefa de
enviar à rainha a notícia da norte súbita de Lorde
Arryn. Nunca antes enviei uma ave de coração mais
pesado.
- Asas escuras, palavras escuras - Ned murmurou.
Era um provérbio que a Velha Ama lhe ensinara
quando ainda era um rapaz.
- É o que dizem as mulheres dos pescadores -
concordou o Grande Meistre Pycelle -, mas sabemos
que nem sempre é assim. Quando a ave de Meistre
Luwin trouxe a notícia sobre seu filho Bran, a
mensagem aqueceu todos os corações verdadeiros do
castelo, não é verdade?
- É bem assim, Meistre,
- Os deuses são misericordiosos - Pycelle inclinou a
cabeça. - Visite-me sempre que desejar, Senhor
Eddard. Estou aqui para servir.
Sim, pensou Ned quando a porta se fechou, mas a
quem?
No caminho de volta aos seus aposentos, deparou
com a filha Arya nos degraus em espiral da Torre da
Mão, girando os braços enquanto lutava para se
equilibrar sobre uma perna. A pedra áspera tinha
esfolado seus pés nus. Ned parou e olhou para ela.
- Arya, o que está fazendo?
- Syrio diz que um dançarino de água é capaz de se
apoiar num dedo do pé durante horas - suas mãos
bateram o ar em busca de equilíbrio.
Ned foi obrigado a sorrir.
- Qual dos dedos? - ele brincou.
- Qualquer dedo - Arya respondeu, exasperada com a
pergunta. Saltou da perna direita para a esquerda,
oscilando perigosamente antes de recuperar o
equilíbrio.
- Precisa fazer isso aqui? - ele perguntou. - Uma
queda por estes degraus é longa e dura.
- Syrio diz que um dançarino de água nunca cai - ela
abaixou a perna para se apoiar nas duas. - Pai, Bran
virá agora viver conosco?
- Não durante muito tempo, querida - ele respondeu.
- Ele precisa recuperar as forças. Arya mordeu o
lábio.
- O que Bran fará quando for crescido?
Ned ajoelhou-se ao seu lado.
- Ele tem muitos anos para encontrar esta resposta,
Arya. Por ora, basta saber que viverá
- na noite em que a ave chegara de Winterfell,
Eddard Stark levara as filhas ao bosque sagrado do
castelo, um acre de olmos, amieiros e choupos que
pairavam sobre o rio. Ali, a árvore-coração era um
grande carvalho, cujos antigos ramos estavam
cobertos de trepadeiras de bagas-fumo; eles ah se
ajoelharam para dar graças, como se fosse um
represeiro.
Sansa adormeceu ao nascer da lua, Arya, várias
horas mais tarde, enrolando-se na erva sob o manto
de Ned. Ele manteve a vigília sozinho pelo resto das
horas de sombra. Quando a madrugada surgiu sobre
a cidade, os botões vermelho-escuros de sopros-de-
dragão rodeavam as filhas.
- Sonhei com Bran - segredara-lhe Sansa. - Eu o vi
sorrindo.
- Ele ia ser um cavaleiro - Arya agora estava
dizendo. - Um cavaleiro da Guarda Real. Ainda pode
ser um cavaleiro?
- Não - Ned respondeu. Não via nenhuma razão para
mentir. - Mas um dia pode ser senhor de um grande
castelo e sentar-se no conselho do rei. Pode erguer
castelos como Brandon, o Construtor, ou dirigir um
navio pelo Mar do Poente, ou entrar para a Fé da
sua mãe e tornar-se Alto Septão - mas nunca mais
correrá ao lado de seu lobo, pensou com uma tristeza tão
profunda que as palavras não eram suficientes, ou
deitar-se com uma mulher, ou tomar nos braços o próprio
filho.
Arya inclinou a cabeça, para um lado.
- E eu posso ser conselheira do rei, construir castelos
ou me tornar Alta Septã?
- Você - disse Ned, dando-lhe um suave beijo na testa
- casará com um rei e governará seu castelo, e seus
filhos serão cavaleiros, príncipes e senhores e, sim,
talvez mesmo um Alto Septão.
Arya fez um trejeito.
- Não - ela protestou -, esta é a Sansa - dobrou a
perna direita e voltou aos exercícios de equilíbrio.
Ned suspirou e a deixou ali.
No interior de seus aposentos, de